A velhice é uma treta (II)

Retomo um texto de família (escrito pela minha tia), uma daquelas realidades da vida… Talvez haja algum conforto nessa sabedoria de que a vida é apenas um efémero passar dos anos. Mas de que serve ser velho mas perder qualquer habilidade para viver? Ou viver um mínimo? Confinado num pequeno espaço? É isto a grande promessa de crescer? Abandonar a inocência de criança para se enfrentar com a realidade (cruel) do mundo adulto?
Fica o amor dos mais próximos, daqueles que de verdade deixam todo o seu tempo para ajudar e alargar a vida. O amor pode curar mas sempre só até um ponto. O tempo passa por nós, um presente que não existe, apenas um passado recente ou um futuro próximo. Futuro esse que cada momento nos leva mais perto do final… O ciclo da vida continua, aqueles que uma vez me cuidaram trocam agora de posição, e devo eu cuidar deles. Espero poder devolver aquele amor que me foi dado para que o final, apesar de amargo, tenha alguma doçura.
Sim, a velhice é uma treta! A decadência palpável de todos aqueles que nos rodeiam, visível na pele, nos olhos, nas palavras, nas vozes mais baixas ou desaparecidas, num passo mais lento, num cabelo mais branco. Penso na mão suave da minha avó, contra a minha, áspera e seca, mas que por muito menos passou e viveu. Afinal, se vamos acabar assim, será que vale a pena? Para aqueles que ficamos, estarão connosco as memórias e as fotografias…
Reflexão de 2024:
Acho importante notar o meu prévio engano ao dizer: “um presente que não existe”. Hoje penso que apenas esse momento é que existe de verdade, e tudo o resto é ficção.